O Comitê Norueguês do Nobel divulgou um comunicado neste domingo (18.jan.2026) para esclarecer que o Prêmio Nobel da Paz é indissociável do laureado. Criticou, de forma indireta, a decisão da venezuelana María Corina Machado de entregar sua medalha ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (Partido Republicano), na 5ª feira (15.jan.2026). O gesto que foi agradecido pelo norte-americano.
No texto, o Comitê afirma que “a medalha e o diploma são os símbolos físicos que confirmam que um indivíduo ou organização recebeu o Prêmio Nobel da Paz”, mas ressalta que “o prêmio em si –a honra e o reconhecimento– permanece inseparavelmente ligado à pessoa ou organização designada como laureada pelo Comitê Nobel Norueguês”.
Segundo a instituição, ainda que a medalha ou o diploma passem a outra pessoa, isso não altera quem foi oficialmente premiado.
O comunicado enfatiza que “independentemente do que possa acontecer com a medalha, o diploma ou o valor do prêmio, é e continua sendo o laureado original quem fica registrado na história como o destinatário do Prêmio Nobel da Paz”.
O Comitê também reforça que “um laureado não pode compartilhar o prêmio com outros, nem transferi-lo depois de anunciado” e que “um Prêmio Nobel da Paz nunca pode ser revogado”.
Líder da oposição venezuelana ao regime de Nicolás Maduro (PSUV, esquerda), María Corina foi escolhida por “seu trabalho incansável promovendo os direitos democráticos para o povo da Venezuela e por sua luta para alcançar uma transição justa e pacífica da ditadura para a democracia”, segundo o Comitê Norueguês do Nobel.
A premiação de Machado havia desagradado Trump, que manifestara reiteradamente seu desejo de receber o Nobel da Paz. Quando Maduro foi capturado, María Corina surgiu como opção à transição do governo venezuelano, comandada pelos EUA, mas foi descartada pelo republicano. Segundo o jornal Washington Post, o prêmio teria sido o motivo. Em seguida, Machado disse que iria presentear Trump com a medalha, mas o Instituto Nobel já tinha dito que o prêmio é intransferível.
Em suas declarações na ocasião da entrega da medalha a Trump na Casa Branca, María Corina comparou a entrega ao gesto histórico do general Lafayette, que há cerca de 200 anos teria dado uma medalha com a efígie de George Washington a Simón Bolívar, como símbolo de fraternidade entre os povos dos Estados Unidos e da Venezuela. Ela afirmou que, séculos depois, o povo venezuelano devolve esse símbolo ao “herdeiro de Washington” em reconhecimento ao seu suposto apoio à causa da liberdade.
Sem comentar diretamente o gesto de María Corina ou o contexto político envolvendo Donald Trump, o Comitê deixa claro que não considera seu papel fazer avaliações cotidianas sobre os laureados ou sobre processos políticos em que estejam envolvidos. De acordo com o texto, “o prêmio é concedido com base nas contribuições do laureado até o momento em que a decisão do Comitê é tomada” e “o Comitê não comenta declarações, decisões ou ações posteriores dos laureados”.
Ao mesmo tempo, a instituição ressalta que não há restrições formais quanto ao destino da medalha, do diploma ou do dinheiro do prêmio. “Não existem limitações nos estatutos da Fundação Nobel sobre o que um laureado pode fazer com a medalha, o diploma ou o valor do prêmio”, diz o comunicado, acrescentando que o premiado é livre para “guardar, doar, vender ou dar esses itens”.
O texto lembra que diversos laureados tomaram decisões semelhantes ao longo da história, citando casos como o do jornalista russo Dmitry Muratov, que vendeu sua medalha em 2022 por US$ 103,5 milhões e destinou o valor integral ao fundo do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) para crianças refugiadas da Ucrânia, além de episódios históricos em que medalhas foram doadas, emprestadas ou vendidas.


