O Ministério da Saúde rejeitou, por recomendação da Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde), a compra da vacina contra a doença herpes-zóster. Na rede privada, o imunizante custa cerca de R$ 1.600.
A justificativa da comissão para a não inclusão da vacina no SUS (Sistema Único de Saúde) foi o custo: seria R$ 1,2 bilhão por ano nos primeiros 4 anos e R$ 380 milhões no 5º ano. O total gasto no período seria de R$ 5,2 bilhões. Leia a íntegra do relatório (PDF – 283 kB).
A comissão estimou que 5.456.211 brasileiros poderiam receber a imunização. Em 5 anos, esse número saltaria para 6.471.151, por causa das projeções populacionais de idosos e de pessoas imunocomprometidas.
Em nota, o Ministério da Saúde afirmou que continuará em negociação com a empresa GSK, produtora do imunizante, “em busca de um preço compatível com a disponibilidade orçamentária”. Como comparação, o órgão afirmou que, em 2025, todos os medicamentos distribuídos pelo Programa Farmácia Popular custaram R$ 4,2 bilhões.
Em 2026, o orçamento para o Ministério da Saúde é de R$ 271,3 bilhões. O custo da vacina equivale a aproximadamente 0,44% desse valor.
Segundo dados do Siop (Sistema Integrado de Planejamento e Orçamento), outras 26 ações do ministério custarão, neste ano, mais do que a compra da vacina. O maior valor reservado, de R$ 80,7 bilhões, é para a “atenção à saúde da população para procedimentos em média e alta complexidade”.
Das ações, 6 estão na faixa de R$ 1 bilhão por ano:
Além disso, há um valor de R$ 287,8 milhões reservado para a publicidade do Ministério da Saúde.
Em relação aos gastos governamentais como um todo, a compra do imunizante representaria 0,018% do Orçamento aprovado para este ano, de R$ 6,54 trilhões.
Em levantamento do Ploa (Projeto de Lei Orçamentária Anual) no Siop, 124 ações do Executivo Federal gastarão em torno de R$ 1 bilhão cada.
A lista inclui programas e ações para 24 ministérios.
Em publicação no X, o ex-ministro da Saúde Marcelo Queiroga criticou a decisão do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de não incluir a vacina na rede pública. “O governo Lula negou esse direito a você que paga seus impostos em dia e depende do SUS”, afirmou.
Na postagem, o ministro incluiu uma conversa com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) em que o político pergunta se deveria se vacinar contra a herpes-zóster. “Vou tomar essa herpes-zóster”, disse o ex-chefe do Executivo.
A vacina Shingrix deve ser aplicada em duas doses em um intervalo de 2 meses. Os preços das duas aplicações variam de R$ 800 a R$ 950 cada uma em clínicas privadas.
Eis os valores:
À exceção da aplicação na Drogasil, em todas as clínicas cujo valor foi consultado pelo Poder360 o imunizante custa mais do que o salário mínimo –fixado em R$ 1.621 em 2026.
A herpes-zóster, popularmente conhecida como cobreiro, é uma doença causada pelo vírus varicela-zóster, que também provoca catapora. Depois da recuperação da infecção inicial, o vírus permanece “adormecido” no organismo e pode se manifestar décadas depois, com o envelhecimento ou com a queda da imunidade.
Em muitos casos, a herpes-zóster passa sem a necessidade de intervenções médicas. Porém, em alguns pacientes pode causar complicações graves, incluindo feridas na pele (que secam e criam crosta) e alterações no sistema nervoso, nos olhos e nos ouvidos. Também pode ocasionar a neuralgia pós-herpética (dor crônica intensa que persiste por meses ou anos).
Os principais sintomas são:
As partes do corpo mais atingidas pelas feridas são o tórax, o pescoço e as costas. Caso a lesão seja percebida no rosto, pode provocar problemas oftalmológicos.
Caso necessário, o tratamento é feito com o uso de antivirais.
Os principais grupos atingidos pelo cobreiro são:
Segundo informações do SIA (Sistemas de Informações Ambulatoriais) e SIH (Sistemas de Informações Hospitalares) do SUS (Sistema Único de Saúde), foram registrados 85.888 atendimentos ambulatoriais e 30.801 internações de pacientes com herpes-zóster de 2008 a 2024.
Já dados do SIM (Sistema de Informações sobre Mortalidade) mostram que, de 2007 a 2023, foram 1.567 mortes pela doença. Do total, 90% foram de pessoas com idade maior ou igual a 50 anos –dessas, 53,4% de pessoas com mais de 80 anos.
O número de idosos, grupo mais afetado, cresce a cada ano no Brasil. O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostra que, de 2000 a 2023, a proporção de pessoas com mais de 60 anos no país saiu de 8,7% para 15,6% –ou seja, de 15,2 milhões para 33 milhões.
O imunizante Shingrix, da GSK, é o único disponível no Brasil contra a herpes-zóster.
Em nota, a empresa afirmou que “respeita” o parecer técnico e que está “comprometida em colaborar com as autoridades de saúde”.
Eis a íntegra da nota da GSK:
“A GSK respeita o parecer da Conitec e reforça que a vacina contra o herpes-zóster apresenta elevada eficácia, com benefícios amplamente comprovados na redução de casos, diminuição da severidade dos quadros e na prevenção de complicações. Essa proteção tem impacto direto na redução de internações, de atendimentos emergenciais e, consequentemente, dos custos, inclusive para o sistema público de saúde, além de contribuir para a qualidade de vida dos adultos mais vulneráveis.
“É importante esclarecer que, ao longo de todo o processo, houve reuniões de diálogo técnico com o DPNI (Departamento do Programa Nacional de Imunizações), do Ministério da Saúde, nas quais foram discutidos ajustes que incluíram potenciais estratégias de incorporação por faixas etárias, redução de preço e respectivos resultados sumarizados de custo-efetividade. Ainda assim, o valor final não atingiu os parâmetros definidos para a incorporação ao SUS.
“A GSK está comprometida em colaborar com as autoridades de saúde, contribuindo com evidências atualizadas e estudos que possam apoiar futuras revisões, sempre com o objetivo de ampliar o acesso à prevenção e melhorar a qualidade de vida da população. A vacina permanece disponível na rede privada, podendo ser obtida em farmácias, laboratórios de exames e imagem e clínicas de vacinação.”
Eis a íntegra da nota do Ministério da Saúde sobre a decisão da Conitec:
“Para que uma tecnologia em saúde seja incorporada ao SUS, é necessário que passe pela avaliação da Conitec, que analisa evidências científicas de eficácia, segurança, custo-efetividade e impacto orçamentário.
“No dia 10 de dezembro, a Conitec emitiu parecer final desfavorável à incorporação da vacina contra a herpes-zóster. Reconheceu-se a importância da vacina; no entanto, ela não foi considerada custo-efetiva, uma vez que o impacto orçamentário estimado ultrapassaria R$ 5,2 bilhões ao longo de 5 anos. Para efeito de comparação, todos os medicamentos distribuídos pelo Programa Farmácia Popular custaram R$ 4,2 bilhões no ano passado.
“Até o momento, o laboratório responsável não apresentou nova proposta. O Ministério da Saúde manifestou interesse na incorporação da vacina e seguirá em negociação para a busca de um preço compatível com a disponibilidade orçamentária.”


